sábado, 9 de agosto de 2014

"Há mais marés..."






Ontem cumprimos a etapa mais longa desta Volta a Portugal. 198 quilómetros, com 2.400 metros de subida acumulada, em 4h50. Uma etapa considerada plana, e como tal supostamente mais fácil, ou menos difícil, mas no ciclismo costuma-se dizer que quem torna as etapas fáceis ou difíceis são os ciclistas, e eu acrescento, com a ajuda do S. Pedro. Neste caso o S. Pedro até foi generoso. Ofereceu-nos uma temperatura média de 31,8ºC, mas por outro lado tivemos que “gramar” com vento lateral em grande percentagem do percurso. Sinceramente foi uma das etapas que mais me custou a passar! Não sei se pelo desconforto do tal vento lateral e do sobe e desce constante do relevo desta região, ou se foi mesmo já pelo cansaço de tantos dias a pedalar (e a sofrer) e a ânsia de chegar a Lisboa.

Esta era uma das etapas que eu tinha assinalado com uma cruz para tentar ir para a fuga do dia. Apesar de nunca ter sido um objectivo primordial para mim, gostava de estar pelo menos uma vez em fuga, mesmo sabendo que o mais provável seria ser apanhado antes de chegarmos à meta. Como tem acontecido com todas as fugas nesta Volta a Portugal.

Regra geral que tenta ir para fuga nestas etapas menos decisivas para a discussão da classificação geral são os ciclistas que já estão mais atrasados nesta mesma classificação e não colocam em risco as posições dos melhores classificados. Em parte são fugas facilitadas pelas equipas dos líderes, mas o problema é que são muitos ciclistas a quererem ir para a fuga do dia, acabando por uns anularem as fugas dos outros. A primeira hora de prova é sempre uma “guerra” constante. Com ataques atrás de ataques, até que por obra do destino ou do acaso, meia dúzia de ciclistas conseguem isolar-se e de repente e quase sem explicação lógica a fuga dá-se.
Para a equipa que tem que controlar as operações do pelotão, uma fuga dá sempre jeito. Desde que seja composta por meia dúzia de elementos e que estes não coloquem em perigo a liderança da prova. Quando finalmente se consegue dar uma fuga, a equipa do camisola amarela ou então às equipas que tenham ambição de ganhar a etapa ao sprint, vão controlando o tempo de avanço dos fugitivos. Entre 2 a 5 minutos de avanço será o tempo normalmente consentido. E a fuga acelera mais, o pelotão tem que acelerar também, se a energia ou o empenho dos fugitivos for menor, o pelotão reduz o andamento também. Se os planos correrem dentro do previsto, a ou as equipas que estão a controlar o andamento do pelotão aceleram mais nos últimos quilómetros da etapa e apanham a fuga. Por vezes fazem mal as contas e não conseguem apanhar a fuga.
Nesta Volta as contas têm sido sempre bem feitas e ainda não houve uma fuga, das tais facilitadas, a ser bem sucedida.
A fuga do Rui Sousa no alto da Torre, é outra história. Aí ganha quem está mais forte e não há fugas “facilitadas”.

Estava eu a dizer há dois parágrafos atrás, que hoje tinha planeado tentar ir para a fuga. Simplesmente para “mostrar a camisola” ou dar um ar da minha graça, como alguns adeptos me têm pedido.

Com 20 quilómetros de etapa percorridos, sempre com ataques constantes e uma média horária superior a 45km/h, há 4 ciclistas que se isolam na frente. Ganham rapidamente 30-40 segundos, e apercebi-me que as duas equipas com pretensões a ganhar esta etapa com os seus sprinters – a Tavira e a espanhola Caja Rural, estavam a consentir esta fuga. Seria a minha oportunidade para me juntar a eles.
Desferi um ataque dentro de uma localidade e rapidamente ganhei alguns segundos ao pelotão. Começo a aproximar-me dos ciclistas em fuga. Estariam a 10-20 segundos. Mas quando olho para trás para conferir a distância que já levava do pelotão, vejo a equipa do Tavira a perseguir-me desenfreadamente.
A espanhola Caja Rural tinha permitido a minha fuga, mas a portuguesa Tavira não. Assim que o pelotão me alcança, a perseguição acabou, e os fugitivos que iam ali tão perto começam a desaparecer no horizonte.
Sinceramente achei muito estranho este comportamento do Tavira, e mais propriamente do Manuel Cardoso, chefe de fila desta equipa que mandou os seus colegas fazerem-me a perseguição. Mas cada um sabe de si. Não tenho o direito de criticar as táticas das outras equipas. A única coisa que posso dizer é que “há mais marés que marinheiros”.

Feita a fuga do dia, restou-me ir tranquilamente no pelotão, ajudar os meus colegas a ir buscar abastecimento, dar por vezes abrigo ao meu líder Edgar Pinto, e pouco mais.
Ontem foi daquelas etapas muito desgastantes, não tanto a nível físico, mas sobretudo mental. Muitas horas em cima da bicicleta, com vento lateral e algum calor.
Os últimos quilómetros foram de algum nervosismo e tensão característicos de uma chegada ao sprint.
A fuga mais uma vez foi anulada e por último ganhou um sprínter...russo.

O meu líder Edgar Pinto teve mais uma vez azar. Furou perto da chegada, mas como já foi dentro dos últimos 3 quilómetros, deram-lhe o mesmo tempo do primeiro classificado.

Hoje é dia de contra-relógio. A minha especialidade quando era realmente um ciclista profissional.
Nesta altura estaria já com um nervoso miudinho. Mas hoje, e pela primeira e última vez, na minha carreira, não me vou aplicar ao máximo. Primeiro porque o meu joelho não está condições para isso, depois porque não estou em condições físicas para disputar a vitória na etapa, e por último porque quero ter o prazer, pelo menos uma vez na vida, terminar um contra-relógio sem a boca a saber a sangue

Amanhã será a última etapa da minha última Volta a Portugal, curiosamente termina na minha terra natal e cidade que me viu vencer a Volta a Portugal, há 14 anos – Lisboa

#ImpossibleIsNothing

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