segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A última Sra. da Graça




Bom Dia amigos,
Cá estou mais uma vez para fazer um pequeno relato referente ao meu dia de ontem, que culminou com a subida à mítica Sra. da Graça.

Para conseguir escrever estes textos tenho que acordar cerca de uma hora mais cedo em relação aos meus colegas. Confesso que a cada dia que passa esta minha missão fica mais difícil, pois o cansaço começa a acumular e o tempo que temos para dormir é sempre pouco! Inicialmente tinha previsto, além destas crónicas, deixar-vos alguns vídeos sobre os bastidores da equipa, mas trabalhar com edição de vídeo requer muito tempo e para colocar os mesmos online exige uma ligação à internet de qualidade, e isso é coisa que não existe na maioria dos hotéis por onde passamos. Como amanhã é dia de descanso tentarei colocar o vídeo que descrevo a minha nutrição e suplementos durante a Volta a Portugal.

Ontem cumprimos uma das duas etapas mais duras desta edição da Volta a Portugal. Foram 192 quilómetros com quase 4.000 metros de ascensão. Pelo caminho subimos 4 montanhas pontuáveis. Uma de segunda categoria logo ao km30, outra de terceira categoria e por fim duas de primeira categoria, a última destas foi a subida à Sra. da Graça no Monte Farinha em Mondim de Basto. Confesso-vos que destas 4 montanhas o meu maior receio era a primeira logo aos 30 quilómetros de etapa. E porquê? Porque se eu não aguentasse o ritmo imposto pelo pelotão e ficasse para trás logo nesta subida, seguramente que chegaria fora do controlo de tempo e daria por terminada de forma prematura este meu desafio de chegar a Lisboa! A velocidade com que se fez esta subida foi impressionante! Dez quilómetros de subida com 4,5% de inclinação a uma média de velocidade de 32km/h!! Chegámos a atingir os 42km/h! Para não descolar do grupo principal sofri a bom sofrer! Os quilómetros de subida iam passando e o grupo ia ficando mais reduzido, e eu sempre no “pega e larga”! Mas consegui. Não larguei o pelotão que estaria reduzido a cerca de dois terços.
A próxima montanha difícil estava a cerca de 50 quilómetros da chegada e mesmo que ficasse para trás nessa altura não corria o risco de chegar fora do controlo.

Incrível como as coisas mudam. Há 10-15 anos atrás estas contas e estes meus receios não fariam qualquer sentido. Pois eu seria um dos ciclistas que andava la na frente a atacar. Agora estou a ver e a sentir a Volta a Portugal por um prisma completamente diferente. O lado daqueles ciclistas que sofrem e dão tudo o que têm e o que não têm para conseguirem terminar as etapas, seja por culpa de quedas, de lesões, doença ou uma fase menos boa.

Mas depois há outros momentos durante as etapas que me trazem excelentes recordações. Ontem passámos por Mirandela. E como poderia dizer o historiador José Armando Saraiva: “E foi aqui que Vitor Gamito venceu a sua primeira etapa na Volta a Portugal em bicicleta, já lá vão 21 anos!”
(http://youtu.be/b6PqpPl6viU?list=PL6B724B70F3475BBA).

Depois de passarmos mais uma montanha, esta de 3ª categoria, mas num ritmo menos desconfortável, eis que chega a Serra da Alvão. Uma subida de 1ª categoria, com 9 quilómetros de extensão, em que os primeiros 2km são mais difíceis. A abordagem á entrada desta subida foi alucinante! A velocidade na descida que antecedeu esta montanha e a “guerra” para uma boa colocação já dentro de Vila Real assustou-me! Confesso que fiquei com receio de uma queda e colocar tudo a perder. Eu que até sempre fui destemido em cima de uma bicicleta, nesta Volta ando demasiado cauteloso! Tão cauteloso que entrei muito mal colocado nesta subida e já não consegui seguir com o grupo da frente. Optei por não forçar e segui, mais uma vez, num “grupeto”, à semelhança da etapa anterior. Os restantes 50 km da etapa foram feitos num ritmo um pouco mais confortável. Vou continuar a aguardar por uma oportunidade de fazer algo de interessante numa etapa. Tenho-me sentido melhor de dia para dia, estou recuperar bem, o único senão é o meu joelho que já começa a dar sinais de fadiga, com um dor ligeira mas perfeitamente suportável.

Já tinha subido à Sra. da Graça umas 12-14 vezes em competição. Mas em todas elas tive que dar o litro pois estava a disputar os primeiros lugares das provas. Ontem foi inédito para mim. Fiz a subida integrado num pequeno pelotão mais atrasado e a um ritmo que me permitiu apreciar a festa dos milhares de adeptos que invadiram o Monte Farinha. Não deu para fazer “selfies” durante a subida, mas deu para levar uns banhos de água e até de cerveja! Já para não falar de umas palmadas vigorosas nos costados de alguns adeptos que já não tinham discernimento suficiente para calcular a força que faziam.

A meio da subida recebo a noticia que o meu Edgar Pinto tinha vencido a etapa. Fiquei tão contente que sem me aperceber acelerei mais o meu ritmo e deixei o meu grupo para trás, fazendo o resto da subida sozinho enquanto a cada passo levava uns empurrões de alguns adeptos mais entusiastas.

Foi mais uma subida à Senhora da Graça que ficará gravada na minha memória. A última em competição.

Hoje temos pela frente mais uma etapa com chegada a uma montanha – Santuário da Nossa Senhora da Assunção (Sto Tirso). Mas à semelhança da etapa de ontem, o meu maior receio será a montanha de 2ª categoria que temos que atravessar logo no inicio da etapa ao quilómetro 13. Quem ficar para trás nessa subida dificilmente terminará esta Volta a Portugal!

Obrigado a todos. O vosso apoio tem sido a minha principal energia para continuar a sonhar com a chegada a Lisboa.

Continuo a receber imensas “selfies” e fotos tiradas comigo. Obrigado a todos, no final da Volta farei um puzzle gigante com as mesmas

#ImpossibleIsNothing

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